Titus Andronicus tupiniquim
O último comentário ouvido, sobre uma tragédia popular recente, consolidou minha teoria: brasileiro precisa de drama. O que seria do salão de manicures, da fofoca de um ponto de táxi, do bafafá da fila de padaria, do requintado bate-papo dos “coffe-breaks” de eventos ou mesmo dos programas televisivos, se não houvesse tragédias? Sem dúvida, o Brasil ficaria mais carente e triste. É muito cansativo conversar sobre bolsa de valores, petróleo, política nacional e internacional, economia, arte e poesia. Parece loucura não conhecer detalhes mínimos do último crime que chocou a comunidade antes de começar o “Fantástico, o show da vida”. Não é difícil imaginar, que, de tempos em tempos, a sociedade seja submetida a uma transgressão (ou seria uma regressão?) temporal para o melhor estilo populista de todos os tempos: “pão e circo”. Hoje, um ciumento que assassinou a namorada, ontem o pai que atirou a filha do prédio, anteontem o avião que não conseguiu aterrizar. Tragédias, sem dúvida. No entanto, pouco se parou para discutir sobre questões essencialmente importantes que estavam por de trás de todas as cortinas de sangue. Exploram as lágrimas, o sofrimento alheio, como se tentassem despertar em estranhos sentimentos extremos que os familiares experimentaram. Qual seria a verdadeira preocupação nesse momento? Resgatar algum sentimento de uma sociedade cada vez mais fria e desumana? Ou seria apenas uma forma de contemplar a população com requintes de dramacidade de um teatro gratuito que se construiu ao redor de nossos maiores problemas?
O conceito aristotélico de tragédia passa por uma criação de um protagonista admirável que o público precisa venerar e compreender, mesmo que este tenha atitudes boas ou ruins. A imprensa se encarrega desta construção de personagens em nosso teatro moderno. Para um povo sem cultura e educação, não seria necessário tantos incrementos na personalidade de um anti-herói. O brasileiro se encontra cada vez menos exigente. De tantos exemplos e expoentes da antiguidade clássica, a busca atual é por “panis et circenses” e por isso existe essa mobilidade social ao se tratar de tragédias. A platéia adestrada responde perfeitamente aos incrementos e excrementos publicados pela máquina social. “Titus Andronicus” é uma tragédia shakespeariana das mais sanguinárias do famoso dramaturgo inglês. Nossa dramaturgia atual é decadente, vil e infame. Já se pode imaginar as filas de manifestações populares que irão se formar a cada transporte de um anti-herói de presídios de segurança “máxima”. Populares revoltados, unidos, comprando água e biscoito dos ambulantes aproveitadores, tudo em perfeita sintonia. Quando então irá cortar a multidão uma viatura policial com luzes giratórias esgoelando sua sirene aguda e apunhalando nossa capacidade de refletir e pensar. Essa história de circo e pão despertou minha fome, melhor almoçar antes de tentar digerir esse coquetel sanguinário. Até mais!
Bruno Barbosa de Alencar 18/10/2008 15:00
angela disse
gostei muitíssimo de sua crônica.pensei ate em levá-la para dentro de sala para discutir com meus alunos o poder da imprensa sensacionalista.PENA QUE NAO TENHO IMPRESSORA.Consigo entende-lo melhor em prosa que em versos .Parabens vc sabe usar bem as palavras.
bbalencar disse
Mamãe, você é suspeita para comentar. Mas será sempre muito bem-vinda e considerada!
Te amo!
Luiza Serpa Lopes disse
A tragédia é a expiação do ser humano.
Diante de uma tragédia nos perguntamos como se diante de um espelho:
Até onde podemos ir? Do que é capaz o ser humano?
A tragédia que tanto nos atrai, se faz presente e avassaladoramente íntimas de nós
no momento em que nos identificamos com algo dessa tragédia. Seja com a vítima, seja com o agressor, seja com a situação economica das vítimas, classe média como nós.
Mesmo não se identificado em nada com o agressor e sentir horror ao fato de um pai ter a coragem de jogar uma filha de 8 anos de um prédio. Ao vermos um cara “igual a gente”, que vai ao supermercado com a família, que chora, que rir e passeia no shopping como a gente a curiosidade se torna maior , pelo menos para o leigo e nao conhecedor da psiquê humana, pois no fundo nos perguntamos: eu seria capaz de fazer algo do genero?
Portanto o gosto e interesse pela tragédia, assim como a fofoca (mas isso daria um outro capítulo hehe) não é um fenônemo tupiniquim e sim mundial.
Os americanos, por exemplo, tem acesso o canal de rádio da polícia dentro de suas casas e muita gente deixa ligado direto para saber o que ta rolando de tragé dia na sua própria cidade.
Eu diria que é um fenônemo humano sempre com alguma forma de identificação com a situação.
beijos
Luiza Serpa Lopes
bbalencar disse
Vou ter que escrever outro texto para responder você, minha amiga! Achei fantástico seu comentário, mas vindo de você não me espanta nem um pouco pela grande admiração que tenho. Prometo responder cada parágrafo que tenha escrito!
Seja muito mais do que bem-vinda!
Bruno