IN MEMORIAN
A última lágrima que pingou no piso daquela unidade de terapia intensiva foi de uma filha no seu significado integral. Filha por entender que a trajetória de vida daquele paciente rodiado de aparelhos e cateteres havia sido cumprida e este era seu pai. Normalmente as histórias de vida dos pacientes são ouvidas de forma un passã pelo médico atendente. Provavelmente uma adaptação do jaleco branco que não se envolve emocionalmente com os problemas daquele que será por ele assistido.O que não é passível de crítica pois sem este envolvimento emocional o médico pode traçar condutas mais racionais e menos inseguras para o paciente. Mas naquele dia foi diferente… Tratava-se de um senhor com QI acima da média, tocava piano, violão, era o responsável pelo divertimento da família. Há 10 anos, um AVC o acometeu, tirando-lhe a fala. A filha fazia questão de enfatizar que mesmo assim a afasia não lhe roubara a felicidade. Pelo contrário, ele continuava sua tarefa de integração familiar nas tardes de domingo com suas sinfonias clássicas tão bem executadas naquele piano de cauda. Foram 5 anos de superação, embora não conseguisse falar, expressava-se por gestos e fazia-se entendido. Até que outro AVC o deixou plégico à direita. E não conseguir movimentar seus dedos, foi uma condição implacável. Aquela superação do primeiro episódio não aconteceu desta vez. Tornou-se apático, infeliz. Mal podia ouvir Bach ou Chopin que uma lágrima escorria de seu rosto. Não foi difícil diagnosticar sua disúria ( dificuldade de urinar ) como um câncer de próstata avançado. Depois veio a pneumonia, a dificuldade de respirar e a intubação da via aérea aos 92 anos. Para quê? Talvez para que o médico plantonista da UTI conseguisse esperar o horário da visita para ouvir essa história de sua filha que implorava que seu pai não sentisse qualquer dor ou sofrimento. Ela não queria hemodiálise, não queria antibiótico mais forte, não queria medicação para manter a pressão… Queria demonstrar amor, queria convencer aquele médico plantonista de que existe um motivo maior para que nossa vida seja humana, seja decidida numa amplitude muito maior do que alcança nossa visão ambiciosa. Somos mortais, mas temos nossas missões. Muitas vezes desistimos ou abdicamos de nossa vocação por egoísmo ou por convenção. Sejamos humanos e racionalizemos o sentimento! O paciente que está com a vida sob um fio agora, encontrou sua ponte, sua passagem que será livre de qualquer insegurança. Este é o início do fim. O extremo da vida é o vetor resultante de nossa capacidade de tranformar o que está ao nosso redor e o que está fora de nosso controle. Este senhor conseguiu na esfera familar e na hospitalar transpassar como um raio-x a blindagem do jaleco branco. Arrancando de mim este relato em tom de homenagem. Bruno Barbosa de Alencar 25/02/2010 17:45