Ensaio na surdina
A dor, agora, incomoda apenas o ouvido. Não é uma metáfora, mas, algo que carrego desde a infância. Como aqueles cachorros que o dono, ao dar banho, deixa entrar água no ouvido, minha mãe conseguiu com a falta de experiência em banhar sua cria cultivar esta otite média aguda que, atormenta minha pestana. A outra dor, caprichosa, é tão surda quanto esta, mas por não ter fundamento físico, encontra-se latente. Esta dor, tão bem descrita por Camões, descuidou-se de me fazer seu escravo momentaneamente.
Minha imagem refletida em espelho parece se divertir num jogo de sete erros sem fim. A barba por fazer já é um descaso. Mas, engana-se o leitor que achar ser falta de vaidade, pois, atingi objetivos particulares que não os tornarei públicos. Consigo enxergar, com toda esta miopia, uma saída honrosa para as decepções experimentadas. Esquivar-me, seria tirania. Tornar-me-ia um covarde recíproco.
Sem querer provar novas loucuras e paixões, reservo-me o direito de liberdade que nunca tive plenamente. Sozinho, ando a cometer loucuras que “confesso às estrelas em meu leito noturno”. Durmo sem precisar sonhar. Não existe mais aquele sentimento utópico e onírico que povoava minha ansiedade. Não preciso de alguém para ser feliz. A felicidade se apresenta para as pessoas de várias formas, tão volúvel e simples que nela tropeçamos e quando não atentamos para isso, ela passa despercebida.
É hora de prosseguir. Minha perna pretende selar o destino, dando o passo, que nunca planejei. Vivo só, aprendi a gostar de minha solidão. Preservei todos os princípios para ser meu melhor parceiro. Que venha outra noite fria, não preciso me preocupar, tudo é fruto de meu consentimento. Livre arbítrio. Assim sou eu, recíproco de mim.
Bruno Barbosa de Alencar 02/08/2008
angela ignez disse
Essa liberdade tão proclamada através da solidão soa-me como uma forma de defesa,pois ninguém consegue se bastar…