Duelos sensoriais utópicos
Entrava na sala de consulta, sem pressa, grisalha, maquiagem definitiva na sobrancelha, sorriso contornado pela dentadura bem presa, rugas e um reflexo no andar claudicante de múltiplos bicos de papagaios que os médicos a ensinaram chamá-los de “osteófitos”. Não bastassem os inúmeros exames trazidos da época em que ela ainda tinha menstruação, havia outro motivo para registrar o ocorrido. Era a última consulta do dia. Normalmente, a última consulta sempre reserva grandes surpresas boas ou ruins. A paciência deste examinador havia se esgotado com a chatice do paciente anterior. Mas, este último atendimento que tinha tudo para ser uma catástrofe, não foi. A senhora M.R.S. 84 anos segurava a porta de atendimento por vários minutos como se aguardasse a entrada de outra pessoa. Então, passados os minutos alongados por aquela mão cheia de artroses nos dedos, entrava na sala outra velinha. Esta, irmã daquela que eu atenderia, talvez com mais rugas do que a irmã e que se equilibrava com as pontas de uma manta de renda branca que cobria seus ombros curtos. Sua maquiagem definitiva, suas oito décadas vividas e mais oito anos e alguns traços daquela outra face enrugada eram semelhanças entre as duas. Elas, com alguma dificuldade se acomodaram na cadeira. Pude, então, identificar naquelas duas almas senis algo que nenhum paciente apresentou naquele dia. Eram velhinhas animadas, simpáticas e de bem com a vida. E elas só não conseguiram conquistar minha simpatia imediata porque a que era consultada por mim, não havia tomado o diurético no dia da consulta pois iria pegar uma condução coletiva e ficou com medo de não conseguir segurar sua diurese.Logo, sua medida da pressão arterial ficou pouco acima da sua meta pressórica. Outros pacientes iriam ouvir, por isso, aquele sermão médico que todo paciente odeia ouvir, mas que na verdade é um conselho árduo que busca o bem-estar do próprio enfermo. Ela ganhou a imunidade do meu sermão. E entretinha-me com histórias tão bem contadas por uma memória que não faltavam detalhes. As duas irmãs disseram que eu me parecia um ex-namorado de uma delas. Na ocasião elas tinham 20 anos e brigavam e se estapeavam pelo tal moreno. Só que apenas uma delas conseguiu a investida daquele jovem apaixonante. As duas irmãs diziam ainda que estavam fazendo hora extra na Terra, que moravam juntas e que se cuidavam há 30 anos. A consulta demorou mais do que de costume e mesmo assim nenhuma delas reclamou de um problema sequer, nem mesmo os que elas tinham verdadeiramente, como a pressão alta e as dores articulares tão evidentes. Depois de ouvir outras histórias que não cabem ao texto, encontrava-me, já, de bom humor. Ensaiava um sorriso, com um semblante receptivo e a culpa corroída pela impaciência que começara a consulta. Elas haviam me encantado. Tanto que sonhei atingir a plenitude da vida com aquele entusiasmo, aquele humor, aquela incapacidade de reclamar, aquele sorriso inocente. A consulta se transformou naquele momento em uma lição de vida. E ao me despedir das duas, um fato inusitado: minha paciente demonstrou ao meu olfato o verdadeiro significado da palavra “flatulência” ao exteriorizar o esforço de se levantar da cadeira. E elas saíram sorridentes da sala de consulta deixando-me com a lembrança daquela consulta inusitada. A imaginação projetava-me o desejo de ser um idoso feliz e de bem com a vida e o olfato se esforçava para que eu esquecesse rapidamente aquele odor. E esta briga sensorial ainda se arrastou por alguns minutos.
Bruno Barbosa de Alencar 25/03/2009 14:00
Ro disse
Gostei muiiiiiiiiiiiito disso rsrsrs