Conjugação dos tempos da vida

Definitivamente altitude não é meu forte. Não fosse o coquetel de turbulências que experimentei naquele vôo eu não teria dormido tão inconsciente naquela noite. Claro que com a colaboração de meu tio que insistiu em me mostrar o valor de doses concentradas de uísque sem gelo. Meus planos começaram a ganhar outros contornos naquele momento. Confesso que inicialmente procurava anestesiar o estresse da ida que fora composta por congestionamento, chuva torrencial, batida de carro e desgaste pós-plantão. Ao mesmo tempo em que era imprescindível aproveitar cada segundo ao lado de meus familiares, era preciso escolher um caminho mais empolgante para esse fim de semana. Era o casamento de um primo, todos pareciam me olhar pensando “o neto mais velho ainda solteiro”, mas isso não me incomodava. Sentia falta de alguma sensação, de algum sentimento. Qual seria o motivo de tal inquietude? O leitor já deve estar adquirindo certa repugnância a meus textos de angústias, tristezas e saudades. Cobro-me uma postura mais despojada, mais intrigante e mais altruísta.

Estávamos numa capela bem colocada no alto de uma serra de pedras. Não tinha uma pedra em meu caminho, mas sem dúvida Drummond, como todo bom mineiro, entenderia a sinestesia e a magnitude daquele lugar mágico. Em contrapartida, acho que todo o silêncio do vale evocou-me sentimentos amplos e imensuráveis, tornando-me inquieto e desajustado naquele instante. Sem querer explicar minha ansiedade, o terno emprestou-me um contorno sóbrio, estado em que devo ter permanecido por poucas horas durante toda minha empreitada de fim de semana.

            Agora eu entrava na igreja, tentando desviar o olhar de um decote ao lado. Impossível não olhar, e até consegui deixar de achar heresia tal atitude, principalmente após ver o padre direcionar para aquela perfeição três ou quatro olhares repentinos e bentos. “Que Deus conserve”, presumo que tenha pensado o frade. A festa se arrastou com vários clichês de um evento assim. Não fosse o buquê da noiva vir inusitadamente na minha direção como uma flecha que me atingiria a testa se minha mão não a impedisse. Seria uma ironia dos sóbrios ou uma tirania dos ébrios? Ou aquela altitude deixaria minhas convenções ainda mais rarefeitas?

A decisão de procurar algo para fazer depois de um entardecer de bebedeira serviu para que a noite fosse um completo fracasso. Rejeição é o pior sentimento que um escorpião pode experimentar. Nem mesmo as danças sensuais que pagamos para assistir, no melhor estilo red light house, foram capazes de deixar amena minha volta. Teria acabado o período de turbulência? Pelo menos o avião não mais balançou. Seria um prenúncio de calmaria, bonança? Antes de aterrizar, pude contemplar, num espetáculo da paisagem, uma curva e vários braços e raízes de rios espelhando a luz e o brilho do sol como se fossem o espelho do céu e da própria estrela magna. Como se o sol estivesse se olhando, se analisando ou percebendo sua imensidão e por que não seu envelhecimento?  Tentei em vão contemplar na superfície do líquido de meu copo alguma reflexão, mas não havia reflexo, nem mesmo um suspiro. A cerveja, ironicamente, era “Sol”, e logo que percebi a ausência deste reflexo consegui, com um gole mais vigoroso, declinar todos os meus pensamentos. E assim retornei.

Bruno Barbosa de Alencar, 29/09/2008

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