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Arte da guerra

A arte da guerra

 

A platéia aplaudiu a grande catarse sentimental

Máscaras sociais esgarçadas sob sandálias frias

Pisoteadas ao som de uma marcha de carnaval

Surgiram pedras e flechas deixando a noite sombria.

 

Não houve lágrimas mesmo com o premeditado final

Que fez o homem triste, no dia, entregar suas garantias

Sangrando o calcanhar de Aquiles, aquela dor racional

Memórias póstumas de um  sofrimento sem analgesia.

 

Os adversários se reencontram em um cenário ideal

Agora sem espectadores, sem disfarce ou hipocrisia

Sob o juramento de Hipócrates, um aforismo passional

 

A inversão dos sentimentos alegrou a nossa monotonia

E o combate que seria uma vingança desproporcional

Sucumbiu transformando-se em uma perfeita sintonia.

 

  1. Bruno Barbosa de Alencar 16/01/2008 14:11 Sonetos.

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Pensamento Vespertino

“Às vezes se paga o preço de uma paixão comum, mas se tem o privilégio de um amor eterno”

Reflexão proveniente de um reflexo…

Bruno Barbosa de Alencar

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Reveillon dos extremos

Dilacera no céu estrelado a faísca de uma grande explosão

O silêncio dos astros rompido com lágrimas de forte emoção

Gases inertes com cores diversas desenham emblemas no ar.

Do lado de cá, luzes envolvidas com goles festivos ao cantar:

É fim do ano e o início dos sonhos perdidos para a redenção!

Deixe esse mundo de lado…

Do outro lado, fogos e gazes para as feridas da selvageria.

É o fogo da explosão repentina que emergiu da infantaria

Fumaça, destroços e a contradição de se atacar o irmão.

Armas e tanques de guerra laceram os corpos no chão.

Fim de ano e de vida, para quem se foi sem uma ave Maria.

 

Homenagem às vítimas da faixa de Gaza (Hamas e Palestinos) 06/01/2009 19:15

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Elementos Harmônicos

 

Areia que não incomoda os olhos

Sol que contempla as curvas nos biquínis

E sublima de uma flor seu orvalho

 Dunas de grãos peregrinos recolhidas

Por mares que lançam correntes geladas

E alcançam na mira de um olhar sem destino

Um Farol acolhendo e guiando os errantes

Que não se importam se é segunda ou domingo.

 

Bruno Barbosa de Alencar 04/01/2008 22:38

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Inversões de valores

Era a primeira entrevista classificatória importante depois de findado o curso de cardiologia, três avaliadores de aventais brancos e gravatas com olhares desconfiados e muito curiosos. De súbito, o mais alto deles, de voz imponente dispara antes de franzir a testa “O que você faz fora da medicina, qual o seu hobbie?” Neste momento não consegui conter o desespero do meu coração e nem mesmo consultei o manual das condutas em entrevistas e respondi  “Faço poesia!” Todos se ajeitaram na cadeira, o que me fez a pergunta abriu um semblante assustado, o outro tirou os óculos da frente (talvez por não acreditar) e a única que sorriu, rompeu o silêncio depois da resposta dizendo “ Que mágico, eu amo poesia e sempre achei que todos os médicos deviam ler pelo menos um poema por dia, mas você disse que é poeta o que é algo bastante diferente, se você fizer parte de nosso corpo clínico talvez iremos abrir um clube de literatura aqui. Meus parabéns pela resposta ousada e inusitada!” E assim alguns minutos ( bem mais tranqüilos) se passaram até eu deixar aquele hospital no dia em que declarei para a cardiologia que a poesia é meu hobbie, como dói mentir tão solenemente. Fernando Pessoa já dizia “O poeta é um fingidor.” Caro leitor, que a cardiologia não saiba, mas é a cardiologia que faço por hobbie e a poesia que verte meus sentidos.

Bruno Barbosa de Alencar 18/12/2008 Após prova teórica e entrevista para o cargo de residência médica em hemodinâmica do Hospital Bandeirantes às 14h:58min

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Metafísica da carne

Tire essa roupa sem culpa

Afrouxe essa calça apertada

Retoque o batom do seu beijo

Brinque com a angústia do desejo

Contorne com essa mão o refrão

Afague essas costas sem crer

Que amanhã tudo vai acabar.

E aperte seu corpo ardente a tremer

Contra suspiros molhados, rompidos

Do silêncio ofegante e retido.

Desligue a novela para ver de fato

Sua alma devorando a matéria

Na conjunção de pecados abstratos.   

 

Bruno Barbosa de Alencar 13/12/2008 16h:17min

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Medida provisória

Sem querer envolver passionalmente o leitor, registro aqui o retorno da vida, após longos períodos de conflitos, indagações, desilusões, vivo um momento distinto. Não seria instinto, todas as possibilidades esgotadas, toda superficialidade, todos os prenúncios, futuro irrelevante, tudo passou. Agora curto essa taquicardia como se fosse o primeiro beijo. O toque, o olhar, o beijo… Tenho a faca e o queijo. Como todo bom mineiro, agora aguardo a mão do destino mostrar-me a linha da vida, do amor e da profissão, porque aliás “uai, Sô”, tenho direito.

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Reflexão

Depois de uma semana em que a chuva castigou, destruiu e ainda gera toda a catástrofe publicada nos principais jornais nacionais,  procuro no fogo, meu ascendente, uma tentativa de equilibrar metaforicamente os elementos da natureza; Se Camões um dia escreveu “Amor é fogo que arde sem se ver”; Se Vinícius de Moraes em um soneto definiu: “Que não seja imortal, posto que é chama”o Amor sempre carregou a chama como sinônimo, como condição sine qua non para sua existência, mas, neste poema ele aparece como oposição ao que lhe foi sugerido até então pelos imortais. Trata-se de um incêndio, que devasta, que não deixa vida, que acaba com todos os sonhos e projetos arquitetados durante nossa fase romântica. Um sentimento bucólico (se é possível imaginar junto ao Romantismo) em perfeita harmonia e que pedimos assim ao amigo Querubim: Uma casa no campo, uma companheira formosa, fiel e dedicada, um jardim para plantarmos árvores e colhermos frutos, filhos para brincarem no jardim e um livro para contar essa trajetória linear e conservadora da vida. Mas, o fogo invadiu  o pomar e pôs fim a esta linha de pensamento. 

PS: Homenagem à passagem de meu tio, dia 29/11/2008.

 

Bruno Barbosa de Alencar 01/12/2008 20:18

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Imbróglios Sentimentais

Ontem a chuva permitia a articulação de pensamentos que se perdiam. O som de suas gotas alcançava sentimentos blindados. O cenário propício arrancou deste despretensioso escritor algumas frases. Mal sabia que essas gotas, em uma proporção muito maior, dizimavam mal-assistidos naquele mesmo instante. E ao achar-me “desprotegido” estaria cometendo o maior crime ideológico que um escritor ou um poeta ocasional tenham colocado no papel ou no pensamento. Aquele sentimento foi descabido e desproporcional. Eis minha retratação para não haver nenhuma querela ideológica que me impeça de descrever sentimentos. Tais sentimentos serão bem aceitos e expostos quando tiverem fundamentos. Fica então a homenagem às vítimas das fortes chuvas que acometem o estado de Santa Catarina com epicentro em Blumenau.

Bruno Barbosa de Alencar 25/11/2008 16:18

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Sentimentos perdidos

Há sentimentos inexplicáveis. Em dias chuvosos, talvez, eles se tornem ameaças exponenciais. Nem capa de chuva ou colete tipo “Kevlar” nos protegem. São raios, gotas de chuva, vento frio e aquela sensação mal definida correndo pelas artérias. Sorriso raro e abreviado. Lá fora o mundo se atropelando com as trocas, diante daquela penumbra, pensamentos contorcidos surgem e se perdem com o barulho da chuva. Porta trancada para novas possibilidades. Cartas de amor da atualidade são recados de Orkut com duplo sentido. Novos tempos, novas abreviações, novas restrições empobrecem as floriculturas. Para quem já plantou uma flor ou uma esperança, nem a chuva cultiva ou resgata o romantismo perdido. Chuva ácida. Humor corrosivo. Sentimentos perdidos.

Bruno Barbosa de Alencar 24/11/2008 16:36

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Dotes de meretriz

Estreitas curvas mal contornadas no ombro

Não fazem o olhar parar na pouca vergonha

Estranha, torta, em frente à pilha de escombros

Pedras e concretos sob suas sandálias bisonhas

E um decote rasgado, morto e mal desenhado

Sem dinheiro ou gorjeta, tropeçando em sarjeta

Vende a alma a seu corpo que não vale o ensejo

De atracar suas entranhas e consumir a cambeta.

Dobras, excessos, estrias com cheiro de queijo

Uma figura vil, andrajosa, suplicando um beijo

Ó Deus! Que tarefa infeliz descrever tal meretriz

Gorda, desprovida de afeto e de beleza, a infeliz.

 

Bruno Barbosa de Alencar 15/11/2008

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Lágrimas de suor

Incapaz de definir a emoção de te beijar

Abraço-te com tanta paixão imperfeita

Que a lágrima escorre do queixo sem lar

Sem saber se é verdadeira ou insatisfeita

Lágrima não é choro de amor a acalentar

Mas também não é suor como gota rarefeita 

É molhada, involuntária e sublimada ao ar.

 

Bruno Barbosa de Alencar 11/11/2008 21:50

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De Osama à Obama

Pensar em novos tempos da política econômica mundial pode ser um erro catastrófico. É sabido que em tempos de profundo caos no mercado financeiro, sempre existe um personagem messiânico criado ou inventado para tentar contornar a crise. Não se conseguiu discutir outra coisa nos principais telejornais mundiais, nos últimos dias, que não fugisse da eleição de Barack Obama, o primeiro negro presidente dos EUA. Mediante a crise que se instalou de forma abrupta, nada mais justificável. Porém, devemos fazer uma leitura crítica desta nova condição política que está por vir.

            Não há muito que se comemorar ou sonhar. Principalmente as nações miseráveis africanas que conseguem enxergar, numa suposta irmandade racial com o presidente eleito, um possível alento para as mazelas que, famigeradas, assolam os desolados subdesenvolvidos, a arrastar as solas dos pés em espinhos e em estradas de chão batido. Claro que, ao se fazer um breve resumo da atuação política de Bush, há uma imensa euforia desenhada por trás de uma grande fumaça de pólvora que fundamentou a atuação política do republicano. Há facções da mídia que, de tão míopes e envolvidas pelo frenesi norte-americano, chegaram a comparar a eleição do primeiro negro nos EUA com a eleição de Lula no Brasil. Até quando viveremos escravos dessa ideologia nacionalista que beira a demagogia barata?

Engana-se o leitor que achar que estou criticando o novo presidente dos EUA, apenas não me iludo com o cenário eufórico de fins dos tempos que se criou, e que agora aponta para uma solução “paliativa” em todos os campos de atuação. Quem não consegue lembrar a tragédia que Osama Bin Laden desenhou no fatídico 11 de setembro? Para os radicais da Al-Qaeda, aquele era o messias, personagem capaz de mudar toda aquela história do capitalismo opressor e selvagem vivida pelos EUA. Embora não caiba, aqui, a comparação, há nos dois casos uma semelhança inadvertida. No caso de Obama, é como se fosse o último cavaleiro do apocalipse (a falsa inocência, a paz disfarçada), já Osama é considerado uma ameaça constante e possível, caracterizando-o como o cavaleiro vermelho (o que destrói pela guerra).

Enquanto isso, em nações miseráveis e semipobres entre as quais a nossa se inclui, espera-se encontrar no presidente democrata a resposta para a falta de competitividade de seus produtos no mercado internacional; acreditamos que o eleito presidente verá com bons olhos o livre comércio das Américas. Obama não é um santo missionário, é um presidente bem intencionado que talvez não dê prosseguimento às condutas imperialistas e intervencionistas de George Bush. Talvez, Obama realmente desmonte a base militar de Guantánamo e reaproxime os EUA de Cuba, ou, quem sabe, não opte pela manutenção de bases e tropas americanas em territórios de conflitos apenas para reforçar o conceito de “polícia do mundo” que os americanos carregam.

São possibilidades, que devem ser analisadas com muito ceticismo e cuidado. Em resumo, seu governo tem boas perspectivas, basicamente pela má conduta de seu antecessor do que em relação ao que se comenta em jornais e revistas sobre sua grande capacidade administrativa. É sempre bom reforçar que ele é inexperiente e não vai colocar em cheque, por genuína benevolência espiritual ou por súplica da  humanidade, a hegemonia americana no mundo capitalista.  Pode-se afirmar, com convicção, que Obama não vai ganhar o prêmio Nobel da paz de 2009, e isso não será o fim do mundo.

Bruno Barbosa de Alencar 10/11/2008; 23h: 39min

FIM DOS TEMPOS?

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Sobras de um samba sem sombra

O surdo esperando o retorno de uma  caixa de som

A baqueta alternando com a mão e marcando o refrão

Uma caixa de guerra explode sem salitre ou carvão

A tropa avançando em compasso, pés descalços, no chão

Com um tan-tan  enrolado em  pedaços de sons em cordão.

De soalhas inquietas ressonadas de um pandeiro a tremer

Saem vozes obtusas, agudas e  incertas, impossíveis de ver.

Fazendo os pés de um mineiro ensaiar com o pandeiro

Passos de “harmonia do samba” que se dança em janeiro

Mas onde está o boêmio, o passista e a porta-bandeira?

Foram sóbrios para casa ao perceberem essa triste ilusão:

O samba raiz que inspirou mundo a fora, não tem mais percussão.

E não é esse pagode que esconde o barulho de um acordeão!

Imagino do céu, Noel Rosa e Cartola com seus  “samba e chorinho”

Enganados, de um limbo, por instrumentos que tinham tanto carinho.

Bruno Barbosa de Alencar 04/11/08 20:49

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Sono de mendigo

Ostracismo do homem que dorme na rede

Cultivando um sono acordado e safado

Nem a gota de chuva incomoda o malandro

Divertindo a mosca que chegou sem pudor

E sem forças, não age, não cospe e nem finge

Em perfeita harmonia, não esconde o odor

Da preguiça sem fim que o mar emprestou

Impassível e calado, nem sente o calor

Quem fadiga é o vento, em seu movimento

Da rede que, imunda, não traz sofrimento

De um pequeno pagão do chão peregrino

Que empresta ao não seu destino e ilusão

E acordando, amanhã, a procurar um destino

Repousará, sem notar, num outro caixão.

 

Bruno Barbosa de Alencar 29/10/2008 18h44min

Mendigo!

Bendigo, Maldigo, Vosdigo: Mendigo!

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Titus Andronicus tupiniquim

O último comentário ouvido, sobre uma tragédia popular recente, consolidou minha teoria: brasileiro precisa de drama. O que seria do salão de manicures, da fofoca de um ponto de táxi, do bafafá da fila de padaria, do requintado bate-papo dos “coffe-breaks” de eventos ou mesmo dos programas televisivos, se não houvesse tragédias?  Sem dúvida, o Brasil ficaria mais carente e triste. É muito cansativo conversar sobre bolsa de valores, petróleo, política nacional e internacional, economia, arte e poesia. Parece loucura não conhecer detalhes mínimos do último crime que chocou a comunidade antes de começar o “Fantástico, o show da vida”. Não é difícil imaginar, que, de tempos em tempos, a sociedade seja submetida a uma transgressão (ou seria uma regressão?) temporal para o melhor estilo populista de todos os tempos: “pão e circo”. Hoje, um ciumento que assassinou a namorada, ontem o pai que atirou a filha do prédio, anteontem o avião que não conseguiu aterrizar. Tragédias, sem dúvida. No entanto, pouco se parou para discutir sobre questões essencialmente importantes que estavam por de trás de todas as cortinas de sangue. Exploram as lágrimas, o sofrimento alheio, como se tentassem despertar em estranhos sentimentos extremos que os familiares experimentaram. Qual seria a verdadeira preocupação nesse momento? Resgatar algum sentimento de uma sociedade cada vez mais fria e desumana? Ou seria apenas uma forma de contemplar a população com requintes de dramacidade de um teatro gratuito que se construiu ao redor de nossos maiores problemas?

O conceito aristotélico de tragédia passa por uma criação de um protagonista admirável que o público precisa venerar e compreender, mesmo que este tenha atitudes boas ou ruins. A imprensa se encarrega desta construção de personagens em nosso teatro moderno. Para um povo sem cultura e educação, não seria necessário tantos incrementos na personalidade de um anti-herói. O brasileiro se encontra cada vez menos exigente. De tantos exemplos e expoentes  da antiguidade clássica, a busca atual é por “Panis et circenses” e por isso existe essa mobilidade social ao se tratar de tragédias. A platéia adestrada responde perfeitamente aos incrementos e excrementos publicados pela máquina social. “Titus Andronicus” é uma tragédia shakespeariana das mais sanguinárias do famoso dramaturgo inglês. Nossa dramaturgia atual é decadente, vil e infame. Já se pode imaginar as filas de manifestações populares que irão se formar a cada transporte de um anti-herói de presídios de segurança “máxima”. Populares revoltados, unidos, comprando água e biscoito dos ambulantes aproveitadores, tudo em perfeita sintonia. Quando então irá cortar a multidão uma viatura policial com luzes giratórias esgoelando sua sirene aguda e apunhalando nossa capacidade de refletir e pensar.  Essa história de circo e pão despertou minha fome, melhor almoçar antes de tentar digerir esse coquetel sanguinário. Até mais!

Bruno Barbosa de Alencar 18/10/2008 15h00min

 

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Conjugação dos tempos da vida

Diante de tantos pensamentos havia um que incomodava minha serenidade. O silêncio do quarto podia ecoar muitos sentimentos retidos. Meu pensamento era sobre sentimento. Sobre o momento. Talvez o incômodo fosse o abstrato instante em que consegui identificar na minha fraqueza o lampejo da maturidade de minha alma. Falo sobre o metafísico, pois fisicamente as décadas vividas se encarregaram de pintar alguns negros fios, de pálidos, descorados, grisalhos e anêmicos fios de cabelo. Certamente,  minha alma esteja dando sinais senis. Só pelo início do texto, já se percebe uma característica incomum àquele coração acostumado a viver intensamente os frenesis tão comuns em sua vida: a serenidade. É o fim? Uma etapa? Uma ponte? Não quero progredir.

Prefiro achar respostas na imaturidade, no momento. Por mais que provas reais cheguem aos meus pés, primo encontrar-me nos erros ou nos acertos de quem não tem compromisso com o futuro ou com o destino. Sem querer, vivo a impedir meu pé de dar aquele passo que não tem volta. Aquela certeza que nunca retorna. Aquela cerveja que no congelador estoura. Hoje me senti ultrapassado no futuro do pretérito que por ironia era imperfeito. Como se estivesse sentindo na alma a implacável força dos tempos verbais.

Sem querer levar de mim todas as experiências que tive, aceitaria voltar no tempo, reviver, acertar e quem sabe um dia retornar ao mesmo quarto e sentir novamente o medo da solidão que reflete toda minha ilusão juvenil. Se ao menos após esta reflexão, com o mesmo dilema estiver, estarei certo de que somos todos frutos de nossos erros, de nossas incertezas e principalmente de nossa capacidade de reconhecer nossas fraquezas. Então, agora poderia repousar um sono eterno com a sensação de ter tentado  viver novamente o que um dia foi um suspiro. Transformando o que era um futuro de um passado imperfeito em um pretérito mais que perfeito por mim vivido.

Bruno Barbosa de Alencar 24/6/2007 às 23h37min

 

 

 

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Imagem em espelho

Definitivamente altitude não é meu forte. Não fosse o coquetel de turbulências que experimentei naquele vôo eu não teria dormido tão inconsciente naquela noite. Claro que com a colaboração de meu tio que insistiu em me mostrar o valor de doses concentradas de uísque sem gelo. Meus planos começaram a ganhar outros contornos naquele momento. Confesso que inicialmente procurava anestesiar o estresse da ida que fora composta por congestionamento, chuva torrencial, batida de carro e desgaste pós-plantão. Ao mesmo tempo em que era imprescindível aproveitar cada segundo ao lado de meus familiares, era preciso escolher um caminho mais empolgante para esse fim de semana. Era o casamento de um primo, todos pareciam me olhar pensando “o neto mais velho ainda solteiro”, mas isso não me incomodava. Sentia falta de alguma sensação, de algum sentimento. Qual seria o motivo de tal inquietude? O leitor já deve estar adquirindo certa repugnância a meus textos de angústias, tristezas e saudades. Cobro-me uma postura mais despojada, mais intrigante e mais altruísta.

Estávamos numa capela bem colocada no alto de uma serra de pedras. Não tinha uma pedra em meu caminho, mas sem dúvida Drummond, como todo bom mineiro, entenderia a sinestesia e a magnitude daquele lugar mágico. Em contrapartida, acho que todo o silêncio do vale evocou-me sentimentos amplos e imensuráveis, tornando-me inquieto e desajustado naquele instante. Sem querer explicar minha ansiedade, o terno emprestou-me um contorno sóbrio, estado em que devo ter permanecido por poucas horas durante toda minha empreitada de fim de semana.

            Agora eu entrava na igreja, tentando desviar o olhar de um decote ao lado. Impossível não olhar, e até consegui deixar de achar heresia tal atitude, principalmente após ver o padre direcionar para aquela perfeição três ou quatro olhares repentinos e bentos. “Que Deus conserve”, presumo que tenha pensado o frade. A festa se arrastou com vários clichês de um evento assim. Não fosse o buquê da noiva vir inusitadamente na minha direção como uma flecha que me atingiria a testa se minha mão não a impedisse. Seria uma ironia dos sóbrios ou uma tirania dos ébrios? Ou aquela altitude deixaria minhas convenções ainda mais rarefeitas?

A decisão de procurar algo para fazer depois de um entardecer de bebedeira serviu para que a noite fosse um completo fracasso. Rejeição é o pior sentimento que um escorpião pode experimentar. Nem mesmo as danças sensuais que pagamos para assistir, no melhor estilo red light house, foram capazes de deixar amena minha volta. Teria acabado o período de turbulência? Pelo menos o avião não mais balançou. Seria um prenúncio de calmaria, bonança? Antes de aterrizar, pude contemplar, num espetáculo da paisagem, uma curva e vários braços e raízes de rios espelhando a luz e o brilho do sol como se fossem o espelho do céu e da própria estrela magna. Como se o sol estivesse se olhando, se analisando ou percebendo sua imensidão e por que não seu envelhecimento?  Tentei em vão contemplar na superfície do líquido de meu copo alguma reflexão, mas não havia reflexo, nem mesmo um suspiro. A cerveja, ironicamente, era “Sol”, e logo que percebi a ausência deste reflexo consegui, com um gole mais vigoroso, declinar todos os meus pensamentos. E assim retornei.

Bruno Barbosa de Alencar, 29/09/2008

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Ensaio da surdina

 

             A dor, agora, incomoda apenas o ouvido. Não é uma metáfora, mas, algo que carrego desde a infância. Como aqueles cachorros que o dono, ao dar banho, deixa entrar água no ouvido, minha mãe conseguiu com a falta de experiência em banhar sua cria cultivar esta otite média aguda que, atormenta minha pestana. A outra dor, caprichosa, é tão surda quanto esta, mas por não ter fundamento físico, encontra-se latente. Esta dor, tão bem descrita por Camões, descuidou-se de me fazer seu escravo momentaneamente.

            Minha imagem refletida em espelho parece se divertir num jogo de sete erros sem fim. A barba por fazer já é um descaso. Mas, engana-se o leitor que achar ser falta de vaidade, pois,  atingi objetivos particulares que não os tornarei públicos. Consigo enxergar, com toda esta miopia, uma saída honrosa para as decepções experimentadas. Esquivar-me, seria tirania. Tornar-me-ia um covarde recíproco.

            Sem querer provar novas loucuras e paixões, reservo-me o direito de liberdade que nunca tive plenamente. Sozinho, ando a cometer loucuras que “confesso às estrelas em meu leito noturno”. Durmo sem precisar sonhar. Não existe mais aquele sentimento utópico e onírico que povoava minha ansiedade. Não preciso de alguém para ser feliz. A felicidade se apresenta para as pessoas de várias formas, tão volúvel e simples que nela tropeçamos e quando não atentamos para isso, ela passa despercebida.

            É hora de prosseguir. Minha perna pretende selar o destino, dando o passo, que nunca planejei. Vivo só, aprendi a gostar de minha solidão. Preservei todos os princípios para ser meu melhor parceiro. Que venha outra noite fria, não preciso me preocupar, tudo é fruto de meu consentimento. Livre arbítrio. Assim sou eu, recíproco de mim. 

Bruno Barbosa de Alencar 02/08/2008

14h39min

  

 

 

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Projetos estilhaçados

Ando a equilibrar todos meus projetos
Que são cristais raros loucos pra se partirem
Tende para cá e não volta a ficar tão reto
Estilhaça em pedaços miúdos, a minha vertigem
Tonto, não percebo minha derrota
Sangue colore o cenário que já era triste
Não perco o último gole da minha garganta
Agora, meu pé coleciona lesões cortantes
O álcool deixou-me embriagado
Nem serve pra limpar as minhas feridas
Queridas misturas na minha cabeça
Não grite, pois já é de madrugada!
Afago a minha insana lembrança.
Criança não sabe guardar segredo.
Sem medo, já pede outra garrafa
Só cacos, são todos aqui na sala!

E agora que a taça de vinho viu
Suas curvas todas dilaceradas
Mistura do vinho e vermelho vivo
Maluco, acabo perdendo o timbre

O rancor que motivou essa lambança
Não cansa e retorna à minha cabeça
Prefiro não ver tal represália
Projeto que não estorvou, sumiu…

Paródia de A rosa de Chico Buarque
Bruno Barbosa de Alencar 11/07/2008

 

 

 

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Narcolepsia

Narcolepsia

Um desespero se afoga na aflição

De tentar acordar do pesadelo em vão

Suor frio e lágrimas inundam o lençol

Deglutindo o ar engasgado no espasmo

Não se acorda impune da maldição de Orfeu

Quem um dia sem motivo da insônia vivida

Reclamou e hesitou em poesia sofrida

Agora nem se compara a este coma vigil!

Dois dias de pesadelos árduos e perversos

Que se tenta acordar e não se obtêm sucesso.

Vozes confundem minha calma onírica,

Alucinações experimentam minha mente sã torporosa

Sentindo um medo do mundo que não vivo agora

É como afogar-se na terra ou enterrar-se no mar

Não há quem explique este transe sentido

Os membros não obedecem não se move um cílio

Mas o coração disparado e o barulho ao redor são

Percepções que fazem tentar despertar deste mundo

Narcolepsia é viver enterrado por poucos segundos.


Bruno Barbosa de Alencar 23h41min do dia 08/03/08

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