Sem querer envolver passionalmente o leitor, registro aqui o retorno da vida, após longos períodos de conflitos, indagações, desilusões, vivo um momento distinto. Não seria instinto, todas as possibilidades esgotadas, toda superficialidade, todos os prenúncios, futuro irrelevante, tudo passou. Agora curto essa taquicardia como se fosse o primeiro beijo. O toque, o olhar, o beijo… Tenho a faca e o queijo. Como todo bom mineiro, agora aguardo a mão do destino mostrar-me a linha da vida, do amor e da profissão, porque aliás “uai, Sô”, tenho direito.
Arquivo para Prosa
A rotina de um médico em todos os sentidos
Ser médico é uma realidade única. É uma fantástica metáfora de todos os maiores prazeres e sentidos que um corpo pode experimentar. É uma profusão sinestésica que acaba preenchendo todos os quesitos dos mais rigorosos e insatisfeitos com a vida e com a profissão.
Todos os dias assisto, em média, a uns quatro ou cinco filmes. Mas se engana o leitor que achar que este simples escritor seja um rato de cinema. Não vou ao cinema diariamente! Na verdade, eu enquadraria tais filmes assistidos como de ultracurta-metragem, capazes de contar a vida de um sujeito em menos do que 2 minutos. O cenário quase sempre é o mesmo, apesar de toda parafernália tecnológica, os filmes são em preto e branco, e o protagonista na maioria das vezes é réu confesso e nunca vai preso. E assim vislumbramos filmes diversos, com histórias distintas, algumas dignas de Oscar, outras, de tão dramáticas, conseguem nos tornar apreensivos. Quem disse que médico não tem tempo para ver filmes? Ele vê filmes de cateterismo cardíaco!
Médico não tem tempo para música? Talvez seja outra afirmação questionável. Minha preferência musical não está em pauta. Mas, todos os dias, ouço sons harmoniosos e não é preciso ir a uma orquestra sinfônica. São raros os dias em que não aprecio a qualidade e a intensidade de um sopro mesmo sem ir a um concerto ou mesmo ouvir o sopro de um flautista exímio. São sopros tão belos e raros que até diamante serviu como característica dos sopros cardíacos.
Algum desavisado ousaria dizer que médico é insensível. Outra inverdade! O tato das pessoas de jaleco branco é incomparável. Às vezes, podemos identificar ao toque de um dedo indicador, uma patologia sem mesmo precisar de exames. A sensibilidade tátil de um pulso arterial é capaz de tirar grandes conclusões sobre as mazelas do indivíduo, podendo até mesmo ter nossos olhos vendados para fazer tal diagnóstico, como na fibrilação atrial. Não seria exagero uma comparação ao desenvolvimento da sensibilidade tátil de um cego. Muitos cirurgiões operam em campos inacessíveis ao olho nu. E, diariamente, palpamos com o dedo ou com a palma da mão e sentimos propulsões de patologias características.
O desenvolvimento do olfato é fundamental e nítido na medicina. O faro de alguma evolução inesperada de uma doença acontece todos os dias. Muitas vezes conseguimos identificar sem bola de cristal a evolução de um quadro. Garanto ao leitor que não há nenhum oráculo consultado, trata-se de faro mesmo. Sentimos o cheiro da gravidade de uma doença a anos-luz. Apesar de o olfato estar ligado diretamente à experiência do doutor ou mesmo à capacidade de compreender o funcionamento e as limitações anatômicas e fisiológicas do corpo humano é algo inserido na alma do médico.
O leitor deve estar me questionando sobre o paladar. “Será que o médico em sua rotina tem ajuda do paladar apenas quando tem tempo para almoçar ou quando é convidado por um representante de laboratório a um banquete imperdível? “Engana-se, amigo leitor”. Todos os dias sentimos nossos receptores gustativos. Às vezes amargamos o dissabor de uma derrota, da perda de um paciente, da incapacidade terapêutica e do sofrimento alheio. Obviamente o gosto da vitória e da sensação de contribuir de forma total ou parcial para a melhora da qualidade de vida e para o resgate da saúde plena do paciente é algo que não se consegue servir ou mesmo comprar, não está nos restaurantes ou nos cardápios, mas quase diariamente está presente em nosso paladar comtemplando-nos com o gosto opulento e indescritível dessa sensação incomparável.
Em suma, o médico é na sua rotina uma reunião de todos os sentidos humanos, tornando a medicina algo que completa a alma e nos deixa um pouco inerte às necessidades dos seres humanos de retroagir aos principais sentidos do corpo, como por exemplo, ir ao cinema (visual), ir a um concerto (auditivo), ir a um festival gastronômico (paladar e olfativo) e ter um ombro ou um carinho disponível a qualquer hora (tato). Aprendemos a conviver com tais ausências, muitas vezes por elas estarem presentes indiretamente em nosso dia-a-dia.
Bruno Barbosa de Alencar 18/10/2007 (dia do médico)
