Cartas anônimas

Conseguia lutar contra os segundos, mas os minutos eram tão inexoráveis que  aumentavam junto com minha ansiedade. E aquela sensação de viver sentimentos comuns na adolescência ultrapassava o limite do convencional, eu me cortava com a gilete e sangrava. Um sangue diferente daquele que corria por aquela carcaça de coração tão acostumado a se esquivar das flechas do amigo querubim. A poesia que ontem soava como um canto lírico, hoje não passa de um sarau. Não houve uma recepção como deve ter tido a pior poesia do pior poeta que a literatura brasileira conheceu. Qualquer poema, mesmo péssimo, acerta o âmago do desejo do receptor, que demonstra interesse, agradece, enaltece. Nem um obrigado. Mas ela é assim. Será? O tempo dirá. Este, hoje meu inimigo íntimo, não sabe medir a força de suas ações, às vezes de tão efêmero nos faz duvidar de nossa própria existência, nosso envelhecimento. Mas, também consegue ser árduo, nos milésimos dos segundos, todos eles arrancando de nós ora a calma, ora paciência ora o caminho certo e natural dos acontecimentos. Pronto, já consegui dar a partida no carro, ouvia ao fundo musical Belchior, mas não conseguia sentir a música. O ar condicionado talvez me tornasse mais frio. Apesar de tudo, meu coração ainda condicionava possibilidades remotas. Então, na ponte retocava meu penteado novo, que o cabeleireiro insistiu em inovar com uma navalha. Não conseguia me achar tão bem assim quanto antes. Vestia a melhor blusa, perfume predileto e encontro perfeito. Pronto! Quando a esmola é demais, o mendigo agradece. E foi dando espaço para o improvável que ele aconteceu. Consegui estacionar perfeitamente apesar das cervejas bebidas antes com os amigos. Recepção intocável. Sorriso suave, beijo perfeito novamente. Outro beijo. Pronto, sinto-me sufocado.  Preciso respirar o ar da  segurança. Apaixonado é assim mesmo. Estragando tudo, interrompo o beijo, olhos úmidos, irresponsáveis, estragam a grande ceia de minha vida. Assustei o pensamento dela! E mesmo tentando amenizar com um pedido de casamento, não adianta. Agora ela dorme em meus braços e mesmo assim não a tenho em minhas mãos, ironicamente. Bem feito! Mereço punir-me com a grande e idiota idéia de ir embora, passando-me por vítima de uma paixão avassaladora capaz de tornar meus atos pífios, ridículos. Preciso recompor meus destroços. Melhor em casa, depois dessas palavras. Quem sabe.

                        Bruno Barbosa de Alencar.

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