Angústia do jaleco branco
Ao receber, da irmã chorosa, a notícia de que minha avó materna seria submetida a uma cirurgia no seu tornozelo fraturado, uma reflexão não hesitou disparar no meu silêncio consciente um hiato temporal. Era uma cirurgia tranqüila, eu só conseguiria entender tal simplicidade, após alguns anos seguindo o juramento de Hipócrates. Mas, algo tirava minha tranqüilidade. O que seria?
Inconscientemente, talvez, eu ter-me-ia remetido há 4 anos, quando meu avô encontrava-se com diagnóstico de câncer avançado no estômago e seria submetido a uma cirurgia de alto risco para retirada total daquele órgão. Não havia prognóstico. O cirurgião, na ocasião, convidou-me para assistir seu procedimento. Naquele dia, o medo me invadiu. Meu avô era aquela figura que toda criança deveria ter a seu lado para poder lhe seguir todos exemplos. Mesmo no quinto período de medicina, não quis assistir ao que poderia ser, na sala de operação, a transformação de um ser-humano em mito para mim. Naquela época, meu receio era uma mistura de reconhecimento da gravidade da situação e de tormento sentimental da perda de uma pessoa querida. Era como se metade enxergasse sua patologia do ponto de vista acadêmico ( cursava o segundo ano da faculdade de medicina) e a outra metade sentisse a angústia que meus familiares apresentavam (comum em todos familiares de enfermos, leigos em medicina, que creditam suas preces e esperanças naquele ser se esconde em baixo do jaleco branco)
Hoje, com quase 2 anos de formado, fui assaltado pela mesma angústia. Um leitor desavisado poderia inferir se tratar de um sentimento residual, humano, que alguns médicos insistem em perder. Mas, não. Envolvia a atuação deste que escreve como médico, minhas experiências vividas em plantões e hospitais por aí. Há muitos profissionais negligentes, imperitos, algo inevitável. Talvez essa inquietude seja por enxergar outro universo dentro da medicina e de sua prática clínica e cirúrgica que antes não era nítido para aquela retina míope recém-formada. Sem dúvida, não posso ignorar a incômoda reflexão atual. Muito menos desconsiderar o medo daquela cirurgia simples e daquelas complicações improváveis. Se tal desespero é meu sentimento, minha formação familiar ou meu instinto humano, aqui, não vou definir ou reconhecer, e continuará camuflado em minhas palavras e teorias.
Bruno Barbosa de Alencar 25/9/2007 12:30
ANGELA ignez disse
A sua angústia não é bem de um jaleco branco,e sim, de um sentimento chamado ‘AMOR”.É muito bom perceber,apos ler sua crônica,que o carinho e amor daqueles que sempre estiveram presentes em sua vida nao ficaram perdidos no tempo… Vc. é 10!
bbalencar disse
Dizem que elogio de mãe não conta, mas o seu conta sim e muito!
Obrigado por tudo!
BEijos com saudades!
E esse amor foi você que me ajudou a cultivar e educar!
Cris disse
ow que coisa mais linda….